Por Luciano Zorzal
Toda empresa tem muita coisa para fazer.
Vender mais. Melhorar processos. Atender clientes. Reduzir custos. Desenvolver pessoas. Implantar sistemas. Criar novos produtos. Resolver problemas que aparecem no caminho.
Tudo é importante.
O problema começa quando tudo passa a ser prioridade ao mesmo tempo.
A empresa define cinco projetos estratégicos. Depois aparece uma oportunidade comercial importante. Surge uma demanda de um cliente. Alguém tem uma nova ideia. Uma tecnologia chama atenção. O dono pede mais uma iniciativa.
Nada do que estava planejado deixa de existir.
Apenas acrescentamos mais uma prioridade.
E depois outra.
Até que a equipe já não sabe exatamente onde deveria concentrar sua energia.
Prioridade é uma escolha
Existe uma diferença importante entre algo ser importante e ser prioridade.
Sua empresa provavelmente possui dezenas de assuntos importantes.
Mas não consegue dedicar a mesma atenção, dinheiro e capacidade a todos eles ao mesmo tempo.
Por isso, priorizar exige escolher.
E talvez essa seja justamente a parte mais difícil.
Porque escolher uma prioridade significa aceitar que outras coisas importantes precisarão esperar.
Prioridade não é apenas decidir o que vamos fazer. É decidir onde vamos concentrar nossa capacidade agora.
Quando essa escolha não acontece, cada área cria sua própria interpretação.
Para o comercial, uma coisa é prioridade.
Para a operação, outra.
Para o financeiro, outra.
E para o dono, às vezes, a prioridade é aquilo que apareceu na última reunião.
Uma nova prioridade deveria provocar uma nova decisão
Imagine que sua equipe já tenha definido três grandes entregas para os próximos meses.
No meio do caminho aparece uma excelente oportunidade.
Pode fazer sentido mudar o plano.
Planejamento não deveria significar rigidez.
O problema é fazer a nova iniciativa entrar sem discutir o que acontecerá com as anteriores.
Se algo novo se tornou realmente prioritário, talvez alguma coisa precise ser adiada, reduzida ou até abandonada.
Caso contrário, não houve priorização.
Houve apenas acúmulo.
Essa é uma conversa que considero importante dentro das empresas:
“Se isso entra agora, o que deixa de ser feito agora?”
A pergunta parece simples, mas muda bastante a qualidade das decisões.
O excesso de possibilidades tornou o foco ainda mais importante
E existe uma mudança recente que aumenta esse desafio.
Hoje conseguimos produzir ideias, análises e alternativas numa velocidade muito maior.
A Inteligência Artificial potencializou isso.
Podemos pesquisar um novo mercado rapidamente.
Desenhar uma campanha.
Analisar informações.
Criar uma proposta.
Imaginar um produto.
Estruturar um projeto.
Em pouco tempo surgem dezenas de possibilidades interessantes.
Isso é extraordinário.
Mas cria um novo problema de gestão.
Talvez cada vez menos nossa dificuldade seja não saber o que fazer.
A dificuldade passa a ser escolher, entre tantas coisas que poderíamos fazer, o que realmente merece nossa atenção agora.
A tecnologia aumentou nossa capacidade de gerar possibilidades.
Ela não aumentou na mesma proporção nossa capacidade de executar todas elas.
O líder também precisa proteger o foco
Existe aqui uma responsabilidade importante de quem lidera.
O líder não deveria apenas criar novas iniciativas.
Também precisa proteger as escolhas que já foram feitas.
Isso vale especialmente para o dono.
Uma ideia comentada rapidamente por ele pode virar um projeto inteiro no dia seguinte.
Aquilo que para o empresário foi apenas:
“Poderíamos olhar isso…”
pode chegar à equipe como:
“O dono quer isso para agora.”
Por isso, quanto mais alta a posição de liderança, maior precisa ser o cuidado ao introduzir novas demandas.
Nem toda boa ideia precisa virar projeto.
Nem toda oportunidade precisa ser perseguida imediatamente.
Nem todo problema precisa interromper aquilo que já estava sendo feito.
Foco também é uma decisão de liderança.
Talvez você precise de menos prioridades
Não existe um número mágico.
Mas existe um teste simples.
Pergunte separadamente para algumas pessoas da sua equipe:
“Quais são as três coisas mais importantes que nossa empresa precisa entregar nos próximos 90 dias?”
Se as respostas forem completamente diferentes, talvez o problema não seja comprometimento.
Talvez falte clareza sobre prioridade.
Uma empresa pode trabalhar muito e, ainda assim, avançar pouco porque sua energia está distribuída em iniciativas demais.
Escolher menos não significa ter menos ambição.
Pode significar justamente aumentar a possibilidade de transformar intenção em resultado.
Conclusão
Gestão também é fazer escolhas.
E algumas das escolhas mais importantes não são sobre aquilo que vamos começar.
São sobre aquilo que decidimos não fazer agora.
Sempre existirão novas ideias.
Novos problemas.
Novas oportunidades.
Novas tecnologias.
Novas demandas.
O desafio é não permitir que cada novidade reorganize toda a empresa.
Por isso, talvez valha fazer um exercício simples nesta semana.
Olhe para tudo aquilo que sua empresa considera prioridade e pergunte:
Se pudéssemos entregar apenas três coisas realmente importantes nos próximos 90 dias, quais seriam?
E depois faça uma segunda pergunta, talvez ainda mais importante:
O que estamos dispostos a deixar para depois para garantir que essas três realmente aconteçam?
Porque ter muitas prioridades pode transmitir a sensação de ambição.
Mas ter clareza sobre poucas prioridades é o que transforma ambição em execução.
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